- O inimigo do novo, escravo do legado -

Antes das ruas serem iluminadas por lâmpadas a iluminação pública era feita por lamparinas. Não existia uma maneira de acender todas as lâmparinas da cidade de forma automática ao anoitecer, portanto, foi preciso alocar pessoas para fazer isso. Criou-se um trabalho, uma profissão, chamada “acendedor de lamparinas” ~ nome não muito criativo né.

Eventualmente, com a invenção da eletricidade e das lâmpadas, foi inevitável a substituição das lamparinas. Evidente que neste cenário o acendedor de lamparinas se vê diante do seu carrasco e ele não está alucinando.

No capitalismo - inegávelmente - o avanço tecnológico se manifesta como uma representação metafisica do carrasco. E assim foi com o nossos colegas acendedores. Mas e quanto a nós? Nós, a maioria, o bem maior, aqueles que vão ser apenas beneficiados com a nova tendencia? Nós estamos em uma situação moralmente delicada, mas que não implica em um problema prático real (como boa parte dos nossos problemas ~ in parenthesi).


Antes de prosseguir, quero deixar claro que não flerto cegamente com os ideais acéticos da racionalidade pura - o tal erro de Descartes - ou com qualquer outra manifestação do mundo das ideias.

Os valores da sociedade, a moral, são importantes! Os que se colocam como frios, calculistas e puramente racionais, são tolos e nada mais! Eles negam o valor da moral, negam o valor dos sentimentos e dos sentidos como alavanca para seu ego e como pretexto para sua suposta erudição, superioridade e lucidez. É cômico, cômico como são capazes de negar sua própria natureza. Pretendo explorar isso em outra oportunidade.

Apenas fique sabendo que: não estou querendo legitimar coisas que vão foder com a vida do acendedor de lamparinas ou desmerecer nossos julgamentos morais.


Veja que existem duas alternativas práticas aqui. Nós negamos a lâmpada ou nós assinamos o extermínio dos acendedores de lamparina. É claro que como maioria, vamos escolher as lâmpadas. Muitos dos acendedores vão ficar raivosos! Com medo, evidente, pois vão ser prejudicados. E a única alternativa que existe é mudar, ou melhor - como em Origem das Espécies - se adaptar.

Eu honestamente acredito no capitalismo primitivo, selvagem e agressivo da natureza. Acredito que o capitalismo que reconhecemos como um sistema economico é só mais uma das sofisticações feitas pelo homem. A sofisticação da competição. Em um ambiente competitivo, em especial os dinâmicos, a capacidade de adaptação é o que garante a sobrevivência do individuo (ou da espécie). A única alternativa do acendedor de lamparinas é se adaptar.

Convenhamos, lâmpadas são ótimas e bem melhores que lamparinas! Infelizmente temos o problema social do desemprego, mas isso é normal. Novas tecnologias surgem, algumas profissões se tornam obsoletas, enquanto outras são criadas.

Estou trazendo toda essa história apenas para discutir ~ acho que comigo mesmo ~ sobre o medo da mudança, do novo. Essa ideia me ocorreu quando estava discutindo sobre a questão da incorporação do “pronome neutro” na língua portuguesa.

Veja bem, quais são as consequências - negativas - práticas dessa mudança? Nenhuma! A língua está sempre mudando! Não existe argumento ao meu ver capaz de sustentar que devemos conter a mudança na lingua, por que isso seria em si, jogar a natureza da lingua contra ela mesma!

Os argumentos que foram levantados são:

O primeiro argumento é um argumento satélite (não ataca o argumento central, que é sobre a natureza), eu entendo o apelo, mas não vejo o sentido. O surdos precisam ser capazes de adaptar sua leitura labial para acompanhar a lingua. Eles também precisam aprender a ler xingamentos, gírias, jargões que mudam constantemente, portanto, da mesma forma, vão aprender o pronome neutro.

O segundo argumento é estranho. É preciso de muita luta para uma minoria impor uma mudança. Eu acho que é um argumento apelativo, sem muitas bases factíveis com o que vemos na realidade. A lingua é feita e articulada pelo povo, logo as mudanças só ocorrem de fato, se forem recebidas de bom grado pelo povo.

Acho que a última é apenas uma falácia de ***Argumentum ad antiquitatem - um apelo à tradição - que *não **precisa ser discutida.

Não consigo enxergar os problemas graves que o pronome neutro causaria, caso viesse a ser incluido na lingua. O que me resta para pensar é que se trata de um medo. O medo do novo, que sufoca a vontade de avançar. Aprender é sofrimento. Ninguém quer sofrer. As pessoas querem rejeitar essa mudança porque querem preservar a “lingua tradicional” ou é apenas uma insatisfação em ter que aprender o novo?

Por fim, acredito que em muitos casos seja apenas preconceito mesmo. Um simples preconceito em aceitar o outro, como é o outro, quem é o outro e o que faz o outro. Sendo que em nenhum momento, o outro me afeta. Enfim.

Eu entendo que o novo é assustador. Não julgo quem sente esse medo, quem não sentiria? Isso é algo que vai além da discussão anterior. Me incomoda muito sentir que as pessoas deixam o medo do novo dominar.

Nem sempre o novo é melhor, mas o novo permite caminhar para qualquer direção, se no final encontramos um equivoco, retornamos e seguimos para outra direção. Limitar nossos horizontes de ação pela incerteza é lamentável. É lamentável.

Se um dia o acendedor de lamparinas praguejou a invenção da lâmpada, no outro, se sentiu aliviado quando uma delas iluminou seu caminho para casa e se deu conta de que estava vivendo em um novo mundo.


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