O sentimento de puro absurdo é kafkiano.

“Eu não seu porque estou te batendo, mas você sabe porque está apanhando” é invertida para “Eu sei porque estou te batendo, mas você não precisa saber”.

O aparelho jurídico depende da violência para existir. Mas qual o grau da violência?


AS MÁQUINAS JURÍDICA, LITERÁRIA E SEXUAL EM NA COLÔNIA PENAL DE KAFKA - Márcio Seligmann-Silva

“O ordenamento juridico baseado no dispositivo parece ser injusto, não válido, mas eficaz. Como as leis de escravidão ou racistas eram válidas e eficazes em muitos lugares, sem serem justas. O direito é um corpo frio. Mas, justamente por ter perdido a validade, a eficácia final que a máquina jurídica apresenta em Kafka se revelará na sua capacidade de descartar aquele que tentou dar continuidade a um ordenamento jurídico inválido”

Michel Foucault em Vigiar e punir, livro que fala das punições públicas rodeadas de expectadores anteriores à Revolução Francesa:

“O suplício faz parte do procedimento que estabelece a realidade do que é punido. Mas não é só: a atrocidade de um crime é também a violência do desafio lançado ao soberano: é o que vai provocar da parte dele uma réplica que tem por função ir mais longe que essa atrocidade, dominá-la, vencê-la por um processo que a anula. A atrocidade que paira sobre o suplício desempenha portanto um duplo papel: sendo princípio da comunicação do crime com a pena, ela é por outro lado a exasperação do castigo em relação ao crime. Realiza ao mesmo tempo a ostentação da verdade e do poder; é o ritual do inquérito que termina e da cerimônia na qual triunfa o soberano. E ela os une no corpo do suplicado”

A ironia kafkiana está em associar a essa maquinaria jurídica brilhante, com glamour erótico-tecnológico, essa escrita indecifrável que é todo o oposto da escrita jurídica que se quer imediata, sem floreios, compreensível de modo claro. Como quando o oficial afirma: “a culpa é sempre indubitável”! O direito quer uma linguagem domada e controlada: Kafka apresenta a linguagem como um pântano de onde brotam violências míticas que tendem a se repetir eternamente.


This machine is probably the most famous torturing apparatus of the history of literature.

The architect creates his diagrams while thinking of the way the latter will affect the bodies it subjugates.

https://thefunambulist.net/editorials/cruel-designs-the-precise-design-of-torture-in-kafkas-penal-colony

The “supermale” dies like the officer in the Penal Colony in the machine, not as its component, one of its gears, but as its raw material. And yet the union of the mechanized human and humanizing technical machine persists at the stage of a one-dimensional exchange relationship in “transcendental” abstraction. For machines, which like the judgment  pronouncing-executing machine in the Penal Colony and the loving-killing machine in Supermale cannot extend and expand in a montage, the logical end is self-demontage, self-destruction.

https://thefunambulist.net/editorials/philosophy-a-thousand-machines-by-gerald-raunig


O PROCESSO CIVILIZADOR NA ESTRANHA ILHA DA BARBÁRIE - Lenio Streck

“A experiência mística da colônia penal não está na morte que a máquina negou ao oficial; está na leitura daquele que tem a chance de ler este conto magistral. Então, como Kafka, como Wittgenstein, digo: aquilo que de mais importante tenho a dizer sobre Na colônia penal não está dito nestas páginas.”


O MUNDO DOS FATOS POR TRÁS DA NARRATIVA NA COLÔNIA PENAL - CELESTE RIBEIRO DE SOUSA

“Em várias páginas de seus diários e em cartas, Kafka cita e comenta a obra de Dostoiévski e Tolstói, sobretudo a tradução que esses autores russos fazem da dor humana. Na colônia penal também acusa a presença de Friedrich Nietzsche, sobretudo do livro Genealogia da moral. No texto de Kafka observa-se que a moral do oficial, que não se quer cruel, mas justa, inesperadamente se desvela cruel e imoral na figura do visitante. E também é visível a presença de Schopenhauer em Parerga e paralipomena 1 , obra na qual o filósofo chega a comparar o mundo a uma colônia penal.”


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