NARRATIVAS RECICLADAS
Democracia em Vertigem é um filme com objetivos diferentes para públicos diferentes. A diretora Petra Costa organiza uma narrativa consistente capaz de dialogar com portadores de visões distintas, sobre uma mesma situação complexa. Ela torna digerível uma situação repleta de tons de cinza e conflitos atordoantes. O trunfo de Petra é entender que a sua luta é contra narrativas, e para isso, ela também busca trazer sua própria narrativa.
Não é coincidência que as propagandas políticas e as propagandas de guerra sempre abusaram de narrativas fortes, agressivas, repletas de erros factuais e mentiras. Esse formato é historicamente a fórmula perfeita para despertar emoções e estabelecer uma crença, na qual qualquer colectivo se desespera em agarrar para viver. Tudo se resume em contar uma história boa o suficiente para fazer com que as pessoas acreditem nela, como mitos compartilhados: o conceito de nação, dinheiro, religião, tradição. Estas nada mais são que narrativas.
No contexto do Brasil, as narrativas chegam ao público através de canais de fácil acesso como “memes” através do “whatsapp”, o que lhes confere uma natureza quase que incontrolável. Uma pregação repetitiva e apelativa, baseada em uma narrativa reciclada da ameaça comunista e uma demonização de um grupo político específico, visando estabelecer um inimigo em comum.
É intrigante como algo que nem mesmo é original, consegue ganhar tanto prestígio e para o bem ou para o mal, funcionar. A impressão é a de que estamos imersos em um ciclo de reciclagem, não só das narrativas, mas principalmente da vida e das ideias. Afinal, como que ideias que já deram errado, conseguem voltar com força total se colocando como a única saída? E além disso, sempre se provando não sendo a saída correta.
A REALIDADE ESQUIZOFRÊNICA
O capitalismo é de uma natureza cíclica, mas não somente em seu contexto operacional. No livro “Capitalist Realism: Is There No Alternative?”, Mark Fisher define: “O capitalismo é uma entidade monstruosa, infinitamente plástica, capaz de metabolizar e absorver qualquer coisa com a qual entre em contato”. É com este enunciado que o autor traz à tona a ideia de que, como parte do capitalismo, nada que pensamos, nenhuma ideia ou solução, é capaz de fugir da natureza cíclica do sistema. Isto é, o capitalismo ocupa o horizonte do que é pensável, e em um exercício mental simples, é realizável constatar que é mais fácil imaginar o fim do mundo, do que o fim do capitalismo.
Entender que em um considerável nível de extrapolação, tudo que é pensado está limitado, torna fácil a tarefa de entender o porquê tudo parece reciclado. Quando novas ideias, novas soluções, novas narrativas não conseguem se desenvolver, tudo o que resta é reciclar.
Veja por exemplo: eventualmente a sociedade se coloca perseguindo o “bem-estar social”, mas em seguida, por conta da continuidade do ciclo, aplica medidas liberais agressivas, que historicamente são responsáveis pelo aumento da desigualdade. Isso acontece ciclicamente de uma forma estranha e incoerente. Verdadeiramente esquizofrênica. Não existem dúvidas, quem convive e precisa lidar com os acontecimentos e consequências dessa realidade esquizofrênica, são aqueles que vivem o sistema e seu ciclo com maior intensidade, as classes inferiores.
Como demonstrou Michel Foucault, o capitalismo não reproduz o esquema de soberania da Idade Média, baseado principalmente em um estado de guerra contínuo, que considerava a vida humana como um bem consumível pelo poder transcendental. Em vez disso, o capitalismo administra e controla vidas para manter uma extração de trabalho de forma contínua, desta forma, garantindo o consumo pelo poder conferido às classes superiores. O consumo extraordinário de recursos, de forma brutal e titânica, é a única maneira de se desanexar do ciclo esmagador, e assim, as classes superiores o fazem.
UMA MÁQUINA KAFKIANA
Não existe uma forma melhor de descrever a realidade opressora e esquizofrênica da maioria, se não utilizando o termo “absurdo”. O sentimento de puro absurdo é kafkiano.
Em um pequeno conto intitulado “Na Colônia Penal”, escrito por Franz Kafka em 1919, o leitor é apresentado a uma máquina de execução, utilizada pelos governantes de uma ilha, que mata o condenado através da escrita da natureza de seus crimes em seu corpo utilizando lâminas. O processo de execução dura 12 horas, mas é dito que é só depois das 6 horas que o condenado é capaz de entender sua condenação, aceitando seu destino e parando de lutar. Um detalhe importante é que o condenado nunca sabe quais foram seus crimes ou o porque foi condenado. O absurdo apresentado no conto está justamente no processo cruel e injusto de julgamento e punição empregado. Entretanto, como em qualquer obra de Kafka, mesmo lidando com o absurdo, o conto jorra doses cavalares de realidade. É especialmente no detalhe do condenado só entender sua punição na metade da execução, que reside a maior dura crítica.
Ao nascer e viver dentro de um contexto de opressão e exploração, o indivíduo é incapaz de compreender os motivos para seu sofrimento. Essa exploração violenta o seu corpo e deixa marcas irreversíveis. É somente depois de uma longa parte da vida, possivelmente na meia idade, que o indivíduo se dá conta de que a razão do seu sofrimento é: sustentar aqueles que estão acima da sua posição social. O indivíduo se dá conta de que ele se entregou e possivelmente entregou a vida da sua família, em troca de um nada. A consciência de que sofreu e sofre por motivo nenhum, culmina em revolta. Entretanto, esta é rapidamente dissipada quando o indivíduo também toma consciência de que não tem volta. As marcas que foram deixadas pela exploração são permanentes, ele desiste de lutar e aceita seu destino. A imagem do condenado, após 6 horas lutando, consegue se moldar de forma nauseante a imagem de um trabalhador de meia idade explorado ao máximo.
O sistema capitalista figura como a máquina de tortura e opressão, como a do conto. Uma consideração ingênua seria dizer que as classes exploradas, os trabalhadores, são suas engrenagens. Na verdade, como no conto, os trabalhadores condenados são matéria-prima consumível para a máquina, não parte dela. Mas então onde estão os alicerces dessa estrutura opressora? Ela está no cogito coletivo, ocupando os horizontes do que é pensável.
Um questionamento natural seria: mas se os trabalhadores pararem, o sistema para, por isso eles são as engrenagens, correto? Não. Se analisado atentamente, o que acontece é a reciclagem de ideias. O máximo que ocorre (que é responsável por gerar a ilusão de uma mudança), é a ampliação dos direitos do trabalhador e de “bem-estar social”, somente para que depois tudo seja revertido, quando ideias contrárias vierem para serem também recicladas. Portanto, as verdadeiras engrenagens que garantem o funcionamento da máquina é o cuidadoso mecanismo de reciclagem de ideias instaurado no cogito coletivo, uma vez que, ele garante que qualquer ideia ou solução referente aos problemas, garantam a perpetuação do sistema, como já garantiram antes.
O VEREDITO
Uma questão pendente, que talvez tenha ficado confusa, seja sobre a real importância de cuidadosamente reciclar ideias e narrativas. Reiterando, a resposta está na inovação. Novas ideias - que sejam de fato verdadeiras - são capazes de ameaçar o senso de que o único sistema sociopolítico e econômico viável para organizar a sociedade é o capitalismo. Por isso é importante manter todas as ideias limitadas, idealmente, cuidando para que de tempos em tempos estas sejam recicladas para gerar um alívio de perspectiva de mudança, mas sem riscos de dar vazão para ameaças.
Nas classes oprimidas, a mente é submetida a um angustiante processo de lidar com uma realidade fragmentada, esquizofrênica, sem significado. A mente é submergida em um caleidoscópio de ideias vencidas. É absolutamente impossível se manter coerente. Quando é obviamente impossível formar um eu sistemático, a tarefa é surfar sua própria incoerência. Cada vez mais, este é um problema prático, não uma ameaça existencial.
Dissecar a realidade é impossível, não há meios de prosseguir nesta tentativa além desse ponto, mas escutar a discografia de Joy Division é um bom conduíte. É como enxergar toda a vida futura, boa e ruim, intensamente compactada em imagens sonoras. O que separa a banda de qualquer outro predecessor é a falta de qualquer relação aparente de objeto-causa para sua melancolia. É exatamente assim que todos se sentem quando oprimidos pela máquina, chamada de sistema, capitalismo ou realidade. As primeiras palavras da banda, em seu primeiro álbum “Unknown Pleasures”, em sua primeira música “Disorder”, são: “Eu estive esperando um guia vir e me levar pela mão”. Todos estão, afinal, todos querem pensar em algo além, mas ninguém sabe como. Nossas ideias limitadas, limitam nossos horizontes de ação.
Não existe uma solução clara e objetiva para nada que foi dito, e de fato, esta falta de clareza é o que convence de que o(s) problema(s) existe(m). Infelizmente qualquer solução clara e objetiva é ofertada por estúpidos, e gente estúpida, gosta de vender e comprar soluções medíocres. O objetivo desta linha apresentada é: encarar o mundo e não ver um mar calmo de evidências. Os problemas, os conflitos, as narrativas são extremamente complexas e nem sempre alguém chega a uma resposta, mas o esforço de organizar a pergunta, já é um tipo de resposta. É isso que deve ser feito.