Democracia em Vertigem é um filme com objetivos diferentes para públicos diferentes, mas com uma ferramenta em comum, o storytelling. Quando se tenta tornar digerível, os inúmeros tons de cinza de uma situação tão complexa, que às vezes parece um quadro impressionista, para um público que, em geral, só enxerga em preto e branco, a narrativa é muito poderosa.

Não é coincidência que a propaganda, especialmente a política, sempre abusou de narrativas fortes. Às vezes com base em mentiras absurdas, e na nova geração, usando memes com uma linguagem fácil e acessível, difundidas via whatsapp, tendo assim, uma natureza incontrolável. Esse apelo é justamente a forma perfeita de despertar emoções fortes em um povo tão passional, que historicamente têm a predisposição de se agarrar a crenças para viver.

Uma das coisas mais interessantes sobre a nossa espécie é justamente como nós conseguimos através da revolução cognitiva, formar grupos maiores. E porque isso é importante? Porque são os mitos compartilhados que unem grupos em torno de deuses, bandeiras, nações, leis, dinheiro e etc. Portanto, toda cooperação humana em grande escala depende de ficções compartilhadas. Tudo sempre se resume em contar uma história e convencer as pessoas a acreditarem nela. E o homem capaz de contar histórias e convencer as pessoas, se torna poderoso. Combater crenças é extremamente difícil, talvez as únicas formas, se resumem em apontar furos na narrativa dos contos.

Trazendo para o contexto do Brasil, a crença é usada muito mais a curto prazo. A narrativa reciclada da ameaça comunista, somada à demonização de um grupo político específico serve justamente para criar um inimigo vermelho em comum. Nesse meio, várias figuras surgem como líderes de um culto onde a pregação é repetitiva, agressiva, mentirosa e patética. Isso dá para esses líderes poder, dinheiro e influência. Mas se eles têm essa retórica passional que seduz muita gente, a oposição sempre teve a arte do seu lado, talvez porque para fazer arte, é preciso de muita reflexão e estudo.

Petra Costa, diretora do filme, sabe do poder das narrativas e, antes de tudo, como uma cineasta, instrumentalizou a sétima arte para trazer uma narrativa coerente que consegue dialogar com todos os lados. Ela sabe do valor da verdade, das evidências, mas não se esquece de que é contra uma crença que está lutando. Ela sabe que quando a luta é contra uma narrativa, que se transmutou em uma crença, o mais importante, é mostrar como uma história está mal contada.


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