(the show must go on)

Stroszek. Esse foi um dos últimos filmes assistidos por Ian Curtis, vocalista do Joy Division. Ele se matou com 23 anos, mas deixou um legado com uma poesia que sempre me pega, não importa o quanto já tenha escutado. Uma poesia sobre a melâncolia moderna, que entra pelos meus ouvidos e me deixa mentalmente inerte.

“Stroszek é um filme bem fora dos padrões (…) A história é ficção, mas jorra doses cavalares de realidade”

Trata-se de uma parábola sobre a perda da inocência e das ilusões.

É muito simbólico que este tenha sido o último filme assistido por Ian. No final temos a “galinha dançante”, uma alegoria, que dialoga agressivamente com as doses cavalares de melâncolia derramadas pelo filme, direto no espectador. Estas me fazem ter ideia sobre o que passou pela cabeça dele ao assistir esse filme.

“Nós não conseguimos parar a galinha dançante”

Ian tem no personagem principal (Bruno) um espelho, ambos são musicos e majoritariamente tristes e melancólicos em seus intimos. Vivem como peças de um espetáculo que pede cada vez mais, exige cada vez mais e nunca nada parece ser o suficiente. Até que sentimos que não temos mais controle da nossa própria vida. Mas a verdade - a triste e inegável verdade - é que ninguém tem controle sobre a própria vida, e assim, ganhamos a consciência da crueldade e a exigência da vida e do espetáculo.

Sua doença, crise no casamento, vida de espetáculo… Ian chegou ao seu limite, perdeu o controle… “But we can’t stop the dancing chicken”. O show não pode parar. O show tem que continuar.

I don’t want to be in the band anymore. Unknown Pleasures was it. I was happy. I never meant for it to grow like this. When I’m up there, singing they don’t understand how much I give and how it affects me. Now they want more. They expect me to give more. And I don’t know if I can. It’s like it’s not happening to me, but… someone pretending to be me, someone dressed in my skin. Now we’re going to America. I have no control anymore. I don’t know what to do.

As pessoas amam ou odeiam uma imagem, mas esquecem que existe um ser humano por trás.

“Nós não conseguimos parar a galinha dançante”. Talvez enxergar sua própria imagem, tenha sido duro demais. Ian se suicidou nas vésperas da viagem para o inicio da turnê da banda na América. Um final triste, para o homem mais triste do mundo.

New Dawn Fates talvez tenha sido um reflexo dos sentimentos de Ian antes de partir.

Dissecar a realidade é impossível, não há meios de prosseguir nesta tentativa além desse ponto, mas escutar a discografia de Joy Division é um bom conduíte. É como enxergar toda a vida futura, boa e ruim, intensamente compactada em imagens sonoras. O que separa a banda de qualquer outro predecessor é a falta de qualquer relação aparente de objeto-causa para sua melancolia. É exatamente assim que todos se sentem quando oprimidos pela máquina, chamada de sistema, capitalismo ou realidade. As primeiras palavras da banda, em seu primeiro álbum “Unknown Pleasures”, em sua primeira música “Disorder”, são: “Eu estive esperando um guia vir e me levar pela mão”. Todos estão, afinal, todos querem pensar em algo além, mas ninguém sabe como. Nossas ideias limitadas, limitam nossos horizontes de ação. — by: Eu em outro texto.


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